1. Se quisesse dividir minha proposição em partes e argumentos, muitos deles me ocorreriam para provar que é brevíssima a vida dos homens ocupados. Fabiano (filósofo estóico da escola dos Séxtios) costumava dizer: “Não é com sutileza, nem com pequenos golpes, que se deve comabter as paixões, mas sacando a espada no momento do choque”, não aprovava sofismas: “pois se deve vencer as paixões, não espicaçá-las”. Contudo, para mostrar aos insensatos o seu erro, deve-se ensiná-los, não somente deplorá-los. 2. A vida se divide em três períodos: aquilo que foi, o que é e o que será. O que fazemos é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo. Na verdade, o destino perdeu o controle sobre o passado, ninguém pode querer recuperá-lo. 3. Os homens ocupados admitem isso. Na verdade, eles não têm tempo para olhar o passado e, se tivessem, lhes seria desagradável a recordação de algo penoso. O fato é que, somente forçados, eles revivem os maus tempos, não desejam retê-los, embora escondidos sob alguma sedução do prazer transitório se revela com a recordação. 4. Ninguém retoma de bom grado o que passou, exceto aquels cujas ações estão submetidas à sua própria consciência. O que cobiçou ambiciosamente, desprezou arrogantemente, venceu violentamente, enganou perfidamente, furtou desonestamente e prodigamente gastou deve temer a sua própria recordação. Esta é a parte sagrada da nossa vida, que ultrapassa todos os reveses humanos, que não pertence ao destino e que não pode ser atingida pela miséria, pelo medo, nem pelo ataque das doenças. Não se pode incomodá-la, nem tirá-la de quem a possui: a sua posse é perpétua e intrépida. Cada dia só está presente por alguns momentos, mas todos os dias do passado a ti se apresentam quando assim ordenas; consentem que sejam detidos e inspecionados pelo teu juízo, algo que aos homens ocupados falta tempo para fazer. 5. Uma alma segura e tranquila pode correr por todos os momentos da vida; todavia, os espíritos dos homens ocupados estão sob um jugo, não podem se dobrar sobre si próprios, não podem se completar. Por conseguinte, a sua vida se precipita nas profundezas e, assim como de nada serve encher com líquido uma vasilha sem fundo, nada pode trazer de volta o tempo, não importa quanto ele te foi dado, se não há onde retê-lo. Ele atravessará os espíritos abalados e que nada apreendem. 6. O tempo presente é brevíssimo, ao ponto de, na verdade, não ser percebido por alguns. De fato, ele está sempre em curso, flui e se precipita; deixa de existir antes de chegar; não pode ser detido do mesmo modo que o mundo ou as estrelas, cujo incansável movimento não permite que se mantenham no mesmo lugar. Assim, somente o tempo presente pertence aos homens ocupados, tempo este tão breve que não pode ser alcançado e que é retirado deles já que estão distraídos com muitas coisas.

Texto escrito por Sêneca, entre os anos 60 e 70 DC.